Posto fossem só mistérios sem enredo
que fizeram pouco o pouco que restara
do carinho que acabava tão na cara
já cansada e mal dormida desde cedo
Posto fossem só mentiras, sem história
que fizeram gumes, cacos e demências
e que fossem, como foram, displicências
que assanharam nossa verve acusatória
Quando eu olho pro passado fico tenso
percebendo as rugas, rusgas dessas horas
nos espelhos, minha cara, quando penso
raso ou denso, no não-ser e nu lá fora
sinto dor, melancolia, um ódio imenso
do suspenso, do que foi, do que é o agora.
***
selecionado no IX Prêmio Literário Livraria Asabeça 2010
domingo, 23 de janeiro de 2011
Primavera
Eu sinto como houvesse um reinício
setembro, quando passa do equinócio
É o mundo que convida o olhar e o ócio
é flora que encontrou tempo propício
Beleza, muito mais que mero indício
desfilando mais leve, doce e dócil
Primavera zelosa, um sacerdócio
que só finda em dezembro, no solstício
Celebrando estação de mais amores
assaltam nossas ruas vivas cores
céu azul, tempo ameno, belos dias
Surgem ninhos, abelhas, girassóis
sensação que eu e o outro somos nós
natura declamando poesias.
***
menção honrosa no I Concurso de Poemas Cultura Revista
setembro, quando passa do equinócio
É o mundo que convida o olhar e o ócio
é flora que encontrou tempo propício
Beleza, muito mais que mero indício
desfilando mais leve, doce e dócil
Primavera zelosa, um sacerdócio
que só finda em dezembro, no solstício
Celebrando estação de mais amores
assaltam nossas ruas vivas cores
céu azul, tempo ameno, belos dias
Surgem ninhos, abelhas, girassóis
sensação que eu e o outro somos nós
natura declamando poesias.
***
menção honrosa no I Concurso de Poemas Cultura Revista
O espaço da poesia
Kleider voltava da faculdade, meia noite no máximo, quando pensou num poema. Com sua urgência peculiar, resolveu escrever sentado ao meio-fio, quando a viatura surge e o policial o aborda:
- Que tá fazendo?
- Poesia – responde simples.
- Então deixa eu ver...
Pega o caderno, lê os primeiros versos...
- Então o cara é poeta?! Levanta, mão na cabeça...
***
menção honrosa no II concurso Simplicíssimo de minicontos
- Que tá fazendo?
- Poesia – responde simples.
- Então deixa eu ver...
Pega o caderno, lê os primeiros versos...
- Então o cara é poeta?! Levanta, mão na cabeça...
***
menção honrosa no II concurso Simplicíssimo de minicontos
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Conserto em dor menor
Agora me descansam as canetas
E nada desse mundo pede escrita
E tudo já se disse, e supra cita
Enquanto nada dói nem se inquieta
Agora, enquanto fritam minhas fritas
Eu sei quanto é melhor não ser poeta
Agora, enquanto a sina não se ingrata
O vate nem desgosta, nem reluta.
E nada desse mundo pede escrita
E tudo já se disse, e supra cita
Enquanto nada dói nem se inquieta
Agora, enquanto fritam minhas fritas
Eu sei quanto é melhor não ser poeta
Agora, enquanto a sina não se ingrata
O vate nem desgosta, nem reluta.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Meu anjo
Um anjo de castigo do meu lado
Se mostra, sem pudor, aborrecido
Um tédio de impotência, corrompido
Meu anjo cá comigo, desolado
Fez voto de silêncio, nem gemido
Nem grito nem conflito com pecado
Seguiu-me destemido e embaraçado
Até ficar sem cor, desiludido
Empobrecido, mudo e diminuto
Debruça melancólico e saudoso
Curvado pelo peso de ter asas
Um anjo só, sem glórias, guarda luto,
E aguarda, cada vez mais ansioso,
O dia de deixar a minha casa.
Se mostra, sem pudor, aborrecido
Um tédio de impotência, corrompido
Meu anjo cá comigo, desolado
Fez voto de silêncio, nem gemido
Nem grito nem conflito com pecado
Seguiu-me destemido e embaraçado
Até ficar sem cor, desiludido
Empobrecido, mudo e diminuto
Debruça melancólico e saudoso
Curvado pelo peso de ter asas
Um anjo só, sem glórias, guarda luto,
E aguarda, cada vez mais ansioso,
O dia de deixar a minha casa.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Patria filha
Gestação de pátria leva vários anos
Desavenças, muitas lutas, muito impasse
Tanto embate, é claro, sempre causa danos
Toda pátria verte sangue enquanto nasce
Uma vez nascida, o povo soberano
Na bandeira pinta a força que renasce
E a recém-nascida pátria veste o pano
como em manto de esperança se abrigasse
Quando cresce a pátria, filha de seu povo,
Retribui em dobro o quanto recebia
Às futuras gerações, um berço novo
É o abrigo, liberdade e poesia
Será fonte de utopias, do renovo
Será plena, renascente a cada dia
Desavenças, muitas lutas, muito impasse
Tanto embate, é claro, sempre causa danos
Toda pátria verte sangue enquanto nasce
Uma vez nascida, o povo soberano
Na bandeira pinta a força que renasce
E a recém-nascida pátria veste o pano
como em manto de esperança se abrigasse
Quando cresce a pátria, filha de seu povo,
Retribui em dobro o quanto recebia
Às futuras gerações, um berço novo
É o abrigo, liberdade e poesia
Será fonte de utopias, do renovo
Será plena, renascente a cada dia
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Da diarreia de Dom Pedro I
Sobre a mula, inda sofrendo a diarreia
Nosso príncipe Dom Pedro enfim se zanga
Lendo a carta ali, às margens do Ipiranga,
Resolveu posar pra história e pra plateia
Se sentindo a mais rainha da colmeia
Decidiu fazer um show pros seus capangas,
Ergue a espada, dá chilique, solta a franga
Diz: “nem morto abdicarei de minha aldeia.
Vou seguir uma novíssima tendência
(e dizia dentre arrotos e risadas)
Vocês morram pela minha independência
que eu não volto, reino aqui, não pega nada!
Que se cumpra, diga ao povo, dê ciência,
Com licença, que eu vou dar outra cagada.”
Nosso príncipe Dom Pedro enfim se zanga
Lendo a carta ali, às margens do Ipiranga,
Resolveu posar pra história e pra plateia
Se sentindo a mais rainha da colmeia
Decidiu fazer um show pros seus capangas,
Ergue a espada, dá chilique, solta a franga
Diz: “nem morto abdicarei de minha aldeia.
Vou seguir uma novíssima tendência
(e dizia dentre arrotos e risadas)
Vocês morram pela minha independência
que eu não volto, reino aqui, não pega nada!
Que se cumpra, diga ao povo, dê ciência,
Com licença, que eu vou dar outra cagada.”
domingo, 19 de dezembro de 2010
Operários
Somos Anitas, somos Plínios, somos Mários
e construímos como artistas verdadeiros
de muitas raças, muitas crenças, somos vários
como tijolos empilhados nos canteiros
Na mais-valia nos sabemos operários
uns novos Judas nos vendendo por dinheiros
No chão das fábricas, por míseros salários
deixamos fibras, nossas vozes, nossos cheiros
Manufaturas todas levam nossos traços
são nossos braços que produzem as riquezas
Sobram fraqueza, a pele opaca, os olhos baços
dão-nos cansaços e as rotinas e as tristezas
nossa certeza: o tempo escasso e o pouco espaço
corpo em pedaços, que nossa alma siga ilesa.
e construímos como artistas verdadeiros
de muitas raças, muitas crenças, somos vários
como tijolos empilhados nos canteiros
Na mais-valia nos sabemos operários
uns novos Judas nos vendendo por dinheiros
No chão das fábricas, por míseros salários
deixamos fibras, nossas vozes, nossos cheiros
Manufaturas todas levam nossos traços
são nossos braços que produzem as riquezas
Sobram fraqueza, a pele opaca, os olhos baços
dão-nos cansaços e as rotinas e as tristezas
nossa certeza: o tempo escasso e o pouco espaço
corpo em pedaços, que nossa alma siga ilesa.
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