domingo, 23 de janeiro de 2011

Mistérios

Posto fossem só mistérios sem enredo
que fizeram pouco o pouco que restara
do carinho que acabava tão na cara
já cansada e mal dormida desde cedo

Posto fossem só mentiras, sem história
que fizeram gumes, cacos e demências
e que fossem, como foram, displicências
que assanharam nossa verve acusatória

Quando eu olho pro passado fico tenso
percebendo as rugas, rusgas dessas horas
nos espelhos, minha cara, quando penso

raso ou denso, no não-ser e nu lá fora
sinto dor, melancolia, um ódio imenso
do suspenso, do que foi, do que é o agora.

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selecionado no IX Prêmio Literário Livraria Asabeça 2010

Primavera

Eu sinto como houvesse um reinício
setembro, quando passa do equinócio
É o mundo que convida o olhar e o ócio
é flora que encontrou tempo propício

Beleza, muito mais que mero indício
desfilando mais leve, doce e dócil
Primavera zelosa, um sacerdócio
que só finda em dezembro, no solstício

Celebrando estação de mais amores
assaltam nossas ruas vivas cores
céu azul, tempo ameno, belos dias

Surgem ninhos, abelhas, girassóis
sensação que eu e o outro somos nós
natura declamando poesias.

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menção honrosa no I Concurso de Poemas Cultura Revista

O espaço da poesia

Kleider voltava da faculdade, meia noite no máximo, quando pensou num poema. Com sua urgência peculiar, resolveu escrever sentado ao meio-fio, quando a viatura surge e o policial o aborda:
- Que tá fazendo?
- Poesia – responde simples.
- Então deixa eu ver...
Pega o caderno, lê os primeiros versos...
- Então o cara é poeta?! Levanta, mão na cabeça...


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menção honrosa no II concurso Simplicíssimo de minicontos

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Conserto em dor menor

Agora me descansam as canetas
E nada desse mundo pede escrita
E tudo já se disse, e supra cita

Enquanto nada dói nem se inquieta
Agora, enquanto fritam minhas fritas
Eu sei quanto é melhor não ser poeta

Agora, enquanto a sina não se ingrata

O vate nem desgosta, nem reluta.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Meu anjo

Um anjo de castigo do meu lado
Se mostra, sem pudor, aborrecido
Um tédio de impotência, corrompido
Meu anjo cá comigo, desolado

Fez voto de silêncio, nem gemido
Nem grito nem conflito com pecado
Seguiu-me destemido e embaraçado
Até ficar sem cor, desiludido

Empobrecido, mudo e diminuto
Debruça melancólico e saudoso
Curvado pelo peso de ter asas

Um anjo só, sem glórias, guarda luto,
E aguarda, cada vez mais ansioso,
O dia de deixar a minha casa.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Patria filha

Gestação de pátria leva vários anos
Desavenças, muitas lutas, muito impasse
Tanto embate, é claro, sempre causa danos
Toda pátria verte sangue enquanto nasce

Uma vez nascida, o povo soberano
Na bandeira pinta a força que renasce
E a recém-nascida pátria veste o pano
como em manto de esperança se abrigasse

Quando cresce a pátria, filha de seu povo,
Retribui em dobro o quanto recebia
Às futuras gerações, um berço novo

É o abrigo, liberdade e poesia
Será fonte de utopias, do renovo
Será plena, renascente a cada dia

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Da diarreia de Dom Pedro I

Sobre a mula, inda sofrendo a diarreia
Nosso príncipe Dom Pedro enfim se zanga
Lendo a carta ali, às margens do Ipiranga,
Resolveu posar pra história e pra plateia

Se sentindo a mais rainha da colmeia
Decidiu fazer um show pros seus capangas,
Ergue a espada, dá chilique, solta a franga
Diz: “nem morto abdicarei de minha aldeia.

Vou seguir uma novíssima tendência
(e dizia dentre arrotos e risadas)
Vocês morram pela minha independência

que eu não volto, reino aqui, não pega nada!
Que se cumpra, diga ao povo, dê ciência,
Com licença, que eu vou dar outra cagada.”

domingo, 19 de dezembro de 2010

Operários

Somos Anitas, somos Plínios, somos Mários
e construímos como artistas verdadeiros
de muitas raças, muitas crenças, somos vários
como tijolos empilhados nos canteiros

Na mais-valia nos sabemos operários
uns novos Judas nos vendendo por dinheiros
No chão das fábricas, por míseros salários
deixamos fibras, nossas vozes, nossos cheiros

Manufaturas todas levam nossos traços
são nossos braços que produzem as riquezas
Sobram fraqueza, a pele opaca, os olhos baços

dão-nos cansaços e as rotinas e as tristezas
nossa certeza: o tempo escasso e o pouco espaço
corpo em pedaços, que nossa alma siga ilesa.