sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

não voa

é poesia, não te dá superpoderes
não salva o mundo, pouco importa o quanto a adores
não arrepende nem derruba os opressores
não tem sentido além daquele que puseres

é poesia, e não resolve se quiseres
uma aura pura pra seguir-te aonde fores
a mestra amante que alivie os amargores
te cure as dores ou prolongue teus prazeres


(...)

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

o tempo, que atravessa e queima pontes

o tempo, que atravessa e queima pontes
é o mesmo que, saudoso, se arrepende

é novo, crê que há glórias no horizonte
e é velho, cura as chagas no presente

o tempo, que não cura nem responde
é o mesmo que ameniza e até resolve
é novo, planta o sonho e voa longe
e é velho, logo saca seu revólver

o tempo, que nos bate de porrete
é o mesmo em que o pecado se comete
é novo quando estende seu tapete

e é velho quando o efêmero derrete
é novo, mas também é sabonete
e é velho, mas também é um pivete

domingo, 30 de outubro de 2016

ódio

eu não supero a raiva, odeio forte
e tremo de desejo de vingança
um sentimento vil, que não amansa
cortante, e que procura algo que corte

é o próprio combustível e transporte
a cópia cancerosa da esperança
meu ódio, ele se esbalda na matança
mas não se satisfaz sequer co a morte

enoja, me apodrece, gasta e rança
também revitaliza e reconforta
me serve como escudo e como lança

dá gana pra chegar co os pés na porta
me leva onde a clemência não alcança
e ensina que inocência é coisa morta

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

à esposa

que eu amo há tantos anos sem poemas
sem música, sem métrica nem rima
sem forma definida, muito acima
e além de planos, método ou sistema

assim esse soneto só blasfema
o amor, que o melhor texto o subestima
até porque não sou quem bem exprima
o sentimento em letras ou fonemas

mas digo: te encontrar foi muita sorte
a moça massa, a mina foda e forte
consorte e musa em todo e qualquer tema

amor que em mim é a própria poesia
te amo mais que um verso apontaria
por mais legal que fosse o tal poema

terça-feira, 11 de outubro de 2016

olhos amarelos

seus olhos refletiam amarelos
e eu perderia a hora para olhá-los
lembravam-me sonatas, caramelos
meus olhos esquecidos, seus vassalos

e os olhos se encontraram, foram elos
apagando temores, tombos, calos
fagulhas derretendo nossos gelos
lançaram-se os pudores pelos ralos

e os olhos viram corpos nos espelhos
explorando os contornos e os atalhos
seus olhos flamejantes, tão vermelhos
reluziam suores como orvalho

por isso que, apesar dos bons conselhos
não pude vir mais cedo pro trabalho.

domingo, 9 de outubro de 2016

alternando metros (estudo)

.
no som, soneto, o som... me diga, o deca
poderá se alternar co um verso alexandrino?
ou soa mal, e alguém, tentando, peca
e fica muito brega achando que isso é fino?

quem lê, se achar estranho, eu sei, disseca
o verso até que vê, e enxerga cristalino:
quem fez não segurou bem a peteca,
ou não sabe escandir ou fez por desatino.
somente o som, soneto, diga, eu posso
misturar metro assim? ou tomo por suposto:
(que fique então como um segredo nosso)
não pode misturar, não é questão de gosto!
você, soneto, entende desse troço
explique bem pra mim, que estou sempre disposto.
***
não force a amizade, certeza que é feio
juntar mais de um metro no mesmo soneto
desculpe, meu caro, bem sei, me intrometo
não posso evitar, me chateio
não quero ser chato, direi sem rodeio:
é feio! desculpe, eu prometo
tentar ficar quieto, que estou obsoleto
tentar não dizer (no que eu creio!)
pois faça o poema, não pare no meio
escreva, bagunce o coreto
não ouça o conselho, nos mostre a que veio
mas isso se chama "panfleto"
não quer que eu reclame, que diga que é feio
é só não chamar de “soneto”.
***

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Bolo de Fubá

o açúcar e o óleo, três ovos, farinha
dois copos de leite, fubá, pó royal
colher de manteiga, pitada de sal
- tem tudo facinho na sua cozinha

um queijo ralado não vai nada mal
pôr doce de leite também faz a minha,
não bata demais ou seu bolo esfarinha
nem bata de menos, não fica legal

ao leite, à manteiga e ao açúcar, batidos,
acresça o fubá e outros ingredientes
despeje esse creme, no tempo devido,

em alguma assadeira, num recipiente
untado em farinha, use um forno aquecido

e pronto, o trabalho acabou. sirva quente.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Primavera

setembro, quando passa do equinócio
eu sinto que há no mundo um reinício
que a vida encontra o tempo mais propício
brotando fulgurante, doce e dócil

beleza que não teme desperdício
convida a aproveitar mais leve o ócio
Primavera zelosa, um sacerdócio
que só finda em dezembro, no solstício

celebrando a estação mais amorosa
colorem nossas ruas versos, rosas
sorrisos e fragrância de alfazema

surgem ninhos, abelhas, girassóis
momentos menos eu e mais pra nós
Natura declamando seus poemas