sábado, 18 de dezembro de 2010

Completo

Seus olhos impossíveis no retrato
Decerto são certezas e conflito
Caminha exuberante como um mito
e em cada traço afasta o caricato

Seu corpo expressionista é forma e fato
E a natureza planta um olho aflito
Nas tintas que lhe escapam como um grito
Liberto de vergonhas ou recato

Repleto de passados e devires
Carrega um trovoar e um arco-íris
Um lustro de medalha e seu reverso

Reflete força e dom de ser completo
Como as vinte e seis letras no alfabeto
Como um soneto em seus quatorze versos.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Nêga

A Nêga não nega presença na festa
Pagode ou seresta, quem gosta se achega
Terreiro é da Nêga, que santo contesta?
É deusa imodesta, da sanha e da entrega

Seu colo aconchega a quem goza ou protesta
Quem louva ou detesta, inimigo ou colega
Paixão louca e cega e quem diz que não presta
Leseira mais besta e quem nunca sossega

A Nêga abençoa de prece e folia
Mulata alegria nas danças e cantos
Libera esse encanto de paz e alforria

Aos filhos e filhas, ungidos por tantos
Axés e acalantos da Nêga Bahia
de dengo e energia, de todos os santos.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Gêmeas

Porque protestam contra todo o feio
E o tom alheio desse cinza-exato
Porque nos bustos levam mesmo anseio
E seus receios não se aceitam fato

É que perpassam lindas nesses meios
feitos de arreios, dos mais vis contratos
E desacatam livres, sem rodeios,
Os tantos freios dos eternos chatos

Porque têm olhos que colorem tudo
Porque são várias e percebem mundos
E são enormes suas forças fêmeas

Dizem tão claro que me deixam mudo
Enxergam tanto que jamais confundo
São tão diversas que parecem gêmeas.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Retirantes

Pisando em ossos, tudo é morte e nos convida
À derrocada, a desistir desse cansaço
Desse acidente, desse horror chamado vida
Feita de dores, de incertezas e fracasso

Penando expulsos, retirantes sem saída,
Vão nossos olhos para novos endereços
Nos apoiamos nas tragédias reunidas
Em nossos corpos, carregados aos tropeços

Pois caminhamos doloridos, transtornados
Emudecidos sob um céu de desconsolos
Nossos lamentos cada vez mais ressecados
Pela miséria, pelo infértil desses solos

Abandonados, desespero e desconforto
Até que o corpo ache descanso, tombe morto

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Trechos 2

Dos longes de ironias mais antigas
Até as finas facas dessas brigas
Duvido como fosse cor de sonho
Desde a pura alegria ao mais tristonho

E já que se explodiram big bangs
após consagração desses améns
não há razão com força de certeza
nenhuma convicção salvou-se ilesa

De galáxias longínquas, digo nada
É ritmo, rima, métrica e piada
Um som e só, ensaio pra assovios

E pensamento é vento de invisível
Gestante, por incresça que parível
Do vácuo prenhe vazam mais vazios.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Duas palavrinhas

duas palavrinhas já bastam
fiquemos com poucas, vagarosamente

rosam poucas vagas
duas já, fiquemos

palavras ficam
pouco
vagam mentes (duas)

mentem poucas palavrinhas,
já bastamos de vagar

(rinhas vagas
ocas)

bastam duas
bocas palavras.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Adorno

canetas não andam sozinhas
ninguém rouba vozes dos verbos
as letras se forçam calores
matéria e etéreo

poemas não sofrem de amores
nem loucos revelam mistérios
mas ficam conceitos e lendas,
de laudas e linhas e versos

escondem-se ali desertores
disfarçam auréolas e caudas
propõem grandezas e rinhas,
o sangue e a fada

é credo, não mudo nem cedo
algum arremedo de febre
concebe nas frestas de muros
uns claros e escuros de gatos e lebres.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Madrigal

teu beijo e madrugada se eterniza
aflita minha tara
o cheiro de horizonte nessa brisa

achada rima rara
a desculpa precisa
a noite se enciúma enquanto aclara

madruga um beijo a noite fica insone
meu corpo sem acordo

a fome fica enorme quando mordo
e o gosto tem teu nome.